Héstia e o sonho da volta pra casa

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Uma jovem estava tendo pesadelos repetidos. Era sempre a mesma coisa, ela tentava voltar pra casa, mas não conseguia. Acordava sempre angustiada e cansada. Algo importante sobre os sonhos é que eles revelam conteúdos que ajudam no autoconhecimento. Carl Jung foi um dos estudiosos que abriu caminho para o entendimento do campo onírico, sobretudo seus reflexos emocionais e também arquetípicos, carregados de significações.

Para entender os motivos que podiam estar causando os pesadelos, a jovem examinou sua rotina de vida. Detalhes de um cotidiano conturbado, com um trabalho bastante exaustivo, metas de vendas que quase nunca se cumpriam e uma vida social que incluía noitadas e festas com amigos em sua casa. Um verdadeiro redemoinho de ocupações, num lar que funcionava como misto de vestiário e pousada, quase sempre tomado pela desorganização e limpeza precária.

O caos continuava se instalando na rotina da jovem e os pesadelos se repetiam, até que outro elemento veio à tona em mais um sonho. Uma senhora vestida de branco acendeu um fogão de lenha no centro da casa da jovem. Aquela imagem deixou uma indagação. Que mensagem trazia a senhora do fogo? Algo estranho para uma jovem que costumava se alimentar em fast foods. As chamas do fogão de sua casa estavam quase sempre apagadas, quando muito algo era aquecido no forno micro-ondas.

A resposta para esse sonho pode ter vindo do panteão dos deuses gregos. Héstia é uma antiga deusa, invocada ao acender o fogo, reverenciada por sua enorme importância para a civilização. À deusa eram erguidos altares no centro dos principais espaços públicos e privados, em cada casa, em praças e nas escolas. Ela é a própria representação alquímica da transformação dos ingredientes em alimentos, lembrança da chama da vida que pulsa. Nosso papel nesse mundo não precisa ser somente o de cumprir uma rotina exterior. Há quem diga que a vida é pagar boletos e tentar emagrecer. Discordo.

Entrar em contato com o arquétipo da deusa Héstia pode ser um convite para a intimidade e o conforto do lar num sentido pleno, num ritual diário de restabelecer a energia do corpo e da alma. Uma mensagem de entendimento das necessidades individuais, de buscar forças internas para enfrentar o poder do fogo da realidade do dia a dia e dos problemas imprevisíveis. É estabelecer um porto seguro que possa servir de aconchego.

Depois de estudar mais sobre a deusa e de rever sua rotina de organização material e mental, a jovem pôde experimentar um bem-estar que há muito não sentia. Instituiu uma agenda diária mínima de afazeres domésticos e de exercícios de respiração e meditação e matriculou-se em aulas de dança para expurgar o descontentamento com o corpo e a necessidade de estar com as amigas. Desse modo, restabeleceu sua conexão com ela mesma.

Sobre os sonhos e a obra de Jung, Nise da Silveira, no livro ‘Jung: Vida e Obra’, explica que o sonho é uma representação do inconsciente, uma coisa viva, que exprime as coisas tal como são, na linguagem arcaica das imagens e dos símbolos. “Do mesmo modo que o corpo reage de maneira adequada a um ferimento, uma infecção ou a um tipo de vida anormal, assim também as defesas psíquicas reagem por meio de defesas apropriados, a alterações perigosamente perturbadoras”.

 

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

Resgatar a herança da sabedoria também é constituir patrimônio

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As histórias contadas por Dona Benta, no Sítio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato, encantam crianças há décadas e fazem parte do imaginário afetivo de algumas gerações. A avó que compartilha a sua sabedoria através da oralidade representava um bom costume que foi se perdendo ao longo dos anos. O aumento da população idosa no Brasil suscita uma questão importante sobre a necessidade de garantir uma vida inclusiva para os mais velhos. Dados do IBGE indicam que entre 2005 e 2015, a proporção de idosos de 60 anos ou mais, na população do País, passou de 9,8% para 14,3%.
As grandes mudanças de comportamento, sobretudo por conta da tecnologia, facilitaram o acesso à comunicação, mas afastaram o hábito de ouvir histórias, conversar mais, reunir as pessoas de forma a aumentar a compreensão sobre a história de vida de cada membro familiar. As pessoas passam grande parte de sua vida com foco em amealhar os patrimônios que podem ser comprados, em detrimento do grande patrimônio cultural, histórico, familiar e afetivo.
Ainda que haja um grande movimento de consciência sobre a necessidade de cultivar bons hábitos alimentares e de prática de atividades físicas em todas as fases da vida, temos descuidado de fatores importantes e que contribuem para a saúde geral da população da terceira idade. Compartilhar sabedoria e ouvir histórias é um modo de ter acesso aos recursos íntimos, aflorando as emoções e a imaginação e aumentando o sentido de pertencimento.
Ao preservar as tradições do núcleo familiar, aumenta-se a compreensão sobre o que foi vivido pelos antepassados, o que é de grande valor, não apenas para que os mais velhos consigam compartilhar sua sabedoria, mas para que a ancestralidade seja compreendida de forma mais ampla. Quando a história familiar é renegada, uma parte da alma de seus membros tende a se perder, num emaranhado de difícil acesso.
Assim como o vento, os dramas familiares costumam sair pela porta e entrar pela janela. A psicoterapia sistêmica trata, entre outras questões, das “sagas familiares”, que são histórias e dramas que se repetem em uma família. É bastante comum que alguns membros revivam um problema grave que também afetou um antepassado, fazendo renascer uma ferida que não foi curada no núcleo familiar.
Honrar e respeitar a hierarquia, aceitar e compreender a história familiar são formas de preparar psicologicamente os mais novos para os desafios da vida, revelando heranças capazes de afetar as gerações futuras. Compartilhar a sabedoria e entrar em contato com a própria dor são formas de resignificar o sentido da vida, saindo da superficialidade e ampliando a compreensão das leis que regem a existência humana.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

A sabedoria oriental e o princípio do equilíbrio nos relacionamentos

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Nesta semana, pude acompanhar dois eventos realizados pelo terapeuta Jordan Campos, em Salvador e Feira de Santana, onde temas relacionados a relacionamentos amorosos foram amplamente debatidos por mais de 500 pessoas.
O sonho de viver o amor de forma plena, o drama da traição e os desgastes dos relacionamentos são algumas questões que geram enorme inquietação e despertam o interesse das pessoas sobre a necessidade do autoconhecimento. Depois de séculos de subalternidade e de amplo domínio de uma cultura do patriarcado, mulheres e homens passam por uma fase de aceitação de novos valores e modelos possíveis no campo amoroso. Velhos medos e anseios se apresentam em meio a um turbilhão de novas crenças e expectativas.
A sabedoria oriental nos traz ensinamentos valiosos sobre a importância do equilíbrio em todos os aspectos da vida, inclusive no campo da afetividade e do sexo. No mês de junho, na China é reverenciada a deusa Nugua, com um festival de barcos em forma de dragões, simbolizando a importância da integração das energias do masculino e do feminino, da luz e da sombra, numa dança harmoniosa. Vale lembrar que entrar em contato com o simbolismo do dragão é um convite a aceitar e respeitar a força da natureza primitiva que habita cada um de nós e que nos move a novas experiências.
A reverência em relação aos polos opostos nos traz a reflexão sobre a necessidade de compreender o fluxo que alimenta as relações num padrão de equilíbrio. Não há solução mágica, nem passo a passo para salvar relacionamentos conturbados. As engrenagens do amor passam, sobretudo, pela inteligência afetiva e a compreensão de que todos nós temos nossas partes sombrias e iluminadas. Administrar o dar e receber em qualquer relacionamento pode ser a chave para o equilíbrio. Essa é a lógica que permeia todo o processo da psicoterapia sistêmica criada por Bert Hellinger, que vem ganhando cada vez mais adeptos em todo o mundo.
Ao observar como funciona o nosso corpo e a nossa mente, temos indicativos importantes sobre como uma relação amorosa se torna tóxica. Quando respiramos, por exemplo, fazemos um movimento de inspirar e expirar, num ciclo contínuo de entrar em contato com nosso interior e, em seguida, realizar um movimento de expansão. A autoanálise e o despertar para as necessidades do outro devem acontecer em equilíbrio. Olhar o outro e não perceber a si mesmo é um entrave para a saúde dos relacionamentos.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

 

O trauma da violência e a possibilidade da transformação

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“O trauma pode ser transformado no teatro do corpo. Os elementos fragmentados perpetuam a emoção e o comportamento traumáticos podem ser completados, integrados e inseridos novamente ao todo”. Peter Levine.

O indicativo de mulheres vítimas de violência doméstica e abuso no Brasil cresce a cada ano. Uma pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança, divulgada recentemente, aponta que uma em cada três mulheres sofreram algum tipo de violência no último ano, geralmente causadas por maridos e namorados. A cada hora, 503 mulheres sofrem agressões físicas. Do ponto de vista comportamental, esses dados suscitam questionamentos sobre a natureza do trauma, e a dificuldade das vítimas em romper uniões desse tipo.

Lendas e mitos de mulheres vítimas de violência povoam o imaginário de diversos povos. Os Inuítes -uma nação indígena esquimó da América do Norte- reverenciam uma deusa que traz esse arquétipo. Sedna é a deusa do mar, uma mulher bela que foi enfeitiçada por um príncipe que na verdade era uma gaivota, com a promessa de fartura e regalias. Enganada e desamparada, ela passou a viver no ninho da imundície e da miséria.

Na fuga de Sedna, mais uma tragédia. Visitada por seu pai, ela pede ajuda e é levada em um barco, mas seus planos são frustrados pelo agressor que invoca uma tempestade. Jogada ao mar em meio ao desespero, Sedna se agarra à borda do barco e tem seus dedos cortados em cada tentativa de voltar à superfície. Por fim, chega o momento da transformação. Os pedaços dos dedos cortados de Sedna se transformam em animais marinhos, e assim ela passa a alimentar seu povo, se libertando do papel de vítima.

Sedna representa em algum ponto a realidade das mulheres que, passado um jogo inicial de sedução que as envolve em um relacionamento, acabam presas em uma armadilha difícil de sair. A escolha de continuar presa ao trauma não é racional. Diante de situações traumáticas, o processamento das informações sobre a nossa realidade passa por transformações, conforme explica o cientista e estudioso do trauma, Peter Levine, no livro ‘O Despertar do Tigre’. Segundo o autor, o organismo sofre um tipo de desorganização e nos falta capacidade de compreensão as situações do cotidiano.

Algumas reflexões sobre a tentativa de fuga de Sedna nos levam a compreender essa recorrente dificuldade das vítimas em se libertarem de seus agressores. Estar preso ao papel de vítima faz parte de um círculo vicioso. Do ponto de vista terapêutico, é necessário que haja disposição para desafiar as crenças limitantes às quais nos prendemos quando envoltos em situações de extrema tensão. Buscar auxílio terapêutico, de amigos e de parentes faz parte do caminho da cura, mas é a própria consciência da transformação que completa esse processo. Não existe pílula mágica.

Respeitar o mundo interno de sentimentos, sensações e ensejos mais profundos é um dos ensinamentos do mito de Sedna. Em seu desfecho, há um convite à transformação, lembrando que sempre é possível completar a jornada que nos faz recuperar a saúde do corpo e da alma, rumo ao nosso propósito de vida.

A guerra de Troia no mercado de afetos

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Pintura de Auto Ricci, intitulada ‘O Julgamento de Páris’.

Há poucas semanas, uma jovem divulgou um experimento de desventura realizado em um conhecido site de paquera. Em seu perfil, ela inseriu uma foto com o filho e reforçou seu papel de mãe. O resultado prático do teste foi desastroso do ponto de vista afetivo, uma enxurrada de grosserias, misoginia e falta de aceitação, critérios que regem esse mercado virtual de afetos. O desalento dessa mulher me fez pensar nas queixas que ouço diariamente e no drama da escolha no amor, temas que remetem ao mito do julgamento de Páris, prenúncio da guerra de Troia.
O julgamento de Páris é um mito grego que conta a história de um príncipe a quem Zeus ordenou que fosse o juiz para um concurso no qual seria escolhida a mais bela deusa, a quem seria dada uma maçã dourada. As concorrentes foram Hera, Afrodite e Atena. Elas trazem elementos dos arquétipos femininos da expansão nos relacionamentos que se manifestam quando examinamos os detalhes do comportamento que cada mulher estabelece diante de situações do cotidiano. Afrodite representa a beleza e sedução, Atena é a mulher independente e moderna e Hera rege o casamento e a moralidade social.
O príncipe Páris inicialmente tentou se esquivar da ordem de Zeus, sugerindo que a maçã fosse dividida em três partes, o que lhe foi negado. Ele seguiu então o critério da emoção e do desejo, e não da necessidade, escolhendo a deusa Afrodite. Ela havia oferecido a Páris, como prêmio, o cálice do amor e a mulher mortal mais bonita como esposa, no caso, Helena, que já era casada com o general grego Menelau. A partir disso seria iniciada a guerra de Troia. O critério da escolha de Páris está vivo no inconsciente masculino. Deusas ligadas à maternidade não entraram nessa disputa.
A escolha de Páris, a realidade do mercado de afeto dos sites de paquera e as consequências das escolhas amorosas tendo como base a superficialidade nos deixam algumas reflexões. A escolha amorosa nem sempre leva em conta nossos anseios mais profundos. A essência da natureza humana nessa busca é quase sempre motivada pelo desejo pueril, quando a emoção fala mais que alto que a razão.
Por fim, deixo uma citação do psicanalista alemão Bert Hellinger, criador da psicoterapia sistêmica, sobre a simetria oculta do amor. “O amor segue a ordem oculta da Grande Alma. A razão superior e o significado profundo de nossas necessidades físicas instintivas superam e controlam a racionalidade e a vontade”.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e jornalista.

O mito de Pan, a representação do medo

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Pan também é a representação explícita dos instintos e da potência sexual

O medo é uma das grandes causas que leva as pessoas a procurarem atendimento terapêutico. Muitos mitos e arquétipos, em diferentes culturas, tratam desse tema. A mais conhecida referência mitológica do medo é o deus Pan da mitologia greco-romana, cuja consagração acontece no dia 18 de maio, de acordo com o ‘Anuário da Grande Mãe’. Trata-se de uma figura masculina selvagem, peluda, com chifres e cascos, que toca uma flauta. O mito de Pan deu origem à imagem posteriormente designada ao diabo.
O deus Pan, apesar de seu lado obscuro, é regente dos espíritos da natureza, das florestas e dos animais. Na mitologia, ele é filho de Hermes e da Ninfa Dríope. Sua feiura assombrava os bosques e pastos da Arcádia. Vale reforçar que as imagens dos arquétipos gregos fornecem modelos para a cultura secular do ocidente e dizem respeito a muito do que permeia nossos aspectos inconscientes.
O nome síndrome do pânico deriva do mito de Pan, numa metáfora que nos convida a pensar sobre os aspectos mais instintivos e escondidos da natureza humana. Dentro de cada um de nós há algo escondido em grutas e cavernas, instintos primitivos que precisamos confrontar. Ao negar a nossa natureza, nós adoecemos. Talvez isso explique o crescente número de pessoas que se abatem pelo crescente medo, num mundo onde nem sempre há tempo e vontade para o autoconhecimento e a autodescoberta.
Aceitar a natureza de Pan em nosso íntimo é um convite para que possamos liberar os aspectos criativos desse arquétipo. É preciso humildade e aceitação para vencer os bloqueios e limitações, sobretudo a natureza amoral e rude que insistimos em esconder, em vez de encarar.

Texto escrito por: Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.
MTB 1870 / CRTH-BA 01434/17
E-mail: dsinotti@gmail.com, site: daniellasinotti.wordpress.com.

Os dilemas da mãe moderna em O Diabo Veste Prada

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“A mãe é somente um dos muitos arquétipos que pode tornar-se ativado na mulher. Quando reconhecemos os diferentes arquétipos, podemos ver claramente o que está atuando em nós e nos outros”. (Jean Shinoda Bolen – As Deusas e a Mulher)

O Dia das Mães se aproxima e com ele uma enxurrada de campanhas publicitárias que reforçam o perfil da mãe perfeita, no exagero em estabelecer uma imagem padrão quase sempre inatingível, que acaba por gerar um sentimento de angústia em muitas mulheres. No filme ‘O Diabo Veste Prada’, alguns dos dilemas das mulheres modernas podem ser comparados aos que as mães enfrentam.
Maryl Streep vive Miranda Priestly, uma poderosa editora de moda de uma revista, de alto prestígio profissional, mas com uma vida familiar caótica. Na essência, a personagem traduz o dilema de muitas mulheres que passam pelo sofrimento de terem que renunciar o convívio com os filhos e com a família, em nome de uma carreira bem sucedida.
Miranda tem duas filhas com as quais não consegue estabelecer um vínculo afetivo minimamente saudável, todas as responsabilidades de mãe são delegadas a terceiros. Minha avaliação enquanto terapeuta é que uma parte da personagem morreu quando ela passou a negar algo que era de grande valor, sua maternidade. Na angústia de negar aspectos da maternidade, ela tenta suprimir a carência assumindo um perfil arrogante e frio em suas relações.
Outra personagem do filme, Andrea, vivida por Anne Hathaway, é uma jornalista recém-formada em busca de uma oportunidade de trabalho. Humilhada e desprezada, ela inicialmente se recusa a adotar os padrões da moda, mas aos poucos é vencida por sua ambição e pelo glamour do ambiente de trabalho.
Percebo nessa personagem a nossa essência que se perde quando nos deparamos com uma sociedade que exige de nós algo impossível. Sufocada pelas exigências desse emprego, Andrea se enxerga vivendo um pesadelo, mas não desistia de seu sonho. Assim encaramos a maternidade, inicialmente cheias de encantamento, mas depois angustiadas com o nível de exigências impostas. O que fazer para encarar essa jornada e impor o nosso modo de encenar esse papel é o grande desafio. Nesse momento, é importante que haja autorreflexão e um olhar interno profundo para a nossa essência e nossos sonhos.
A sabotagem e a falta de cumplicidade é outro fator que aparece no filme, através da 1ª assistente, Emily (Emily Blunt), que mesmo infeliz em seu trabalho, não vê perspectivas de mudança e ataca qualquer um que se aproxime. É dessa forma que agem as pessoas que insistem em apontar erros e falhas o tempo todo. Seja nas redes sociais, nos grupos da família, ou entre os amigos, há sempre alguém com o dedo em riste para criticar a forma como uma mulher se estabelece no papel de mãe. Vale lembrar que Emily é uma personagem secundária, Isso já dá uma pista sobre como é preciso encarar essa situação. O não é uma ferramenta poderosa e que deve ser utilizada diante dos abusos.
Na relação estabelecida entre essas personagens podemos refletir sobre parte da angústia das mães que se sentem cobradas a serem perfeitas. Com a avalanche de expectativas e de conselhos vem um turbilhão. O sonho acaba se tornando parte do pesadelo de um cotidiano em que as inúmeras tarefas de uma mãe perfeita não deixam espaço para o ser completo que também é mulher, profissional, amiga e outras tantas possibilidades. E aquela mulher que sentia prazer em se arrumar e encontrar as amigas pode morrer dando lugar a uma pessoa que não enxerga sentido na vida.
Ser mãe é também viver a plenitude, é uma jornada que não tem script pronto e depende muito mais da livre escolha e dos ideais de cada uma. Em cada história de vida há uma infinidade de papeis e possibilidades, baseados nas experiências pessoais, crenças e valores.

 

Texto escrito por: Daniella Sinotti, terapeuta transpessoal sistêmica e jornalista.

Belchior e a natureza sombria de todos nós

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A morte do cantor Belchior trouxe à tona um debate sobre a natureza sombria que pode ser despertada em todos nós. Considerado um gênio por sua obra, o autor de grandes sucessos da música brasileira teve nos últimos anos uma vida envolta por mistérios e problemas judiciais. Abandonou a carreira e passou quase uma década sem aparições públicas, em endereço desconhecido.

O lado sombrio da natureza humana está estampado nos noticiários diariamente. Todos temos um lado obscuro. O problema está na forma como encaramos esses aspectos. No livro O Efeito Sombra, Deepak Chopra traz uma série de reflexões interessantes sobre o que Jung denominou de sombra.

Não é que temos uma falha, somos seres completos e escondemos aspectos de nossa essência através de emoções como a vergonha, o medo, a raiva, a hostilidade, a autopiedade, agressividade e vitimismo.

Por muito tempo a humanidade tem tentado, em vão, derrotar a sombra através da dualidade, usando o fanatismo religioso e a intolerância como forma de combater algo que faz parte de nossa natureza.

Aos que se apressaram em atirar pedras no cantor falecido, lembro que quando julgamos alguém como ruim, errado, inferior ou indigno, podemos estar olhando por uma lente limitada. O perdão e a compaixão são elementos que dão luz aos aspectos sombrios.

Para desconstruir nossos aspectos mais tenebrosos temos que ampliar nossa visão sobre nós mesmos e sobre os outros. A sombra pode não ser um inimigo terrível, mas um jardim que precisa ser bem cuidado.

 

Texto escrito por Daniella Sinotti, terapeuta transpessoal sistêmica e jornalista.

Meditação da deusa Shina Tsu Hime para ajudar a enfrentar o medo

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O medo é uma das inúmeras causas que levam as pessoas a procurar terapia. Morte, doença, desemprego, relações amorosas, velhice e outras situações despertam uma paralisia que quase sempre é desproporcional.

Deixo aqui uma proposta de meditação para aqueles que precisam se fortalecer para enfrentar seus medos. Dia 29 de abril é celebrada a deusa japonesa do vento Shina Tsu Hime.

Respire e imagine que está soltando uma pipa colorida no céu claro, rogando à deusa os seus maiores desejos. Por fim, veja que folhas secas são levadas ao vento, e com elas as suas mágoas e lembranças ruins.

Essa é uma meditação baseada nos ensinamentos do Anuário da Grande Mãe, com objetivo de afastar os temores noturnos e as névoas matutinas.

Exercícios de respiração e meditação podem ser altamente benéficos para quem precisa se livrar do medo excessivo.

Texto escrito por Daniella Sinotti, terapeuta transpessoal sistêmica e jornalista.

O homem do esbarrão

elderly-152866_1280.pngHoje, depois de duas horas de espera para atendimento numa agência do Banco do Brasil – de onde finalmente saí sem ter conseguido o que precisava – esbarrei num homem que aparentava uns 60 anos. Aos berros, ele começou a praguejar.

Passado o susto, minha curiosidade foi despertada. Quantas dores e traumas aquele homem carrega e que o mantêm nesse alto nível de estresse e hipervigilância. Uma bomba prestes a explodir. Um retrato de uma sociedade em desequilíbrio, que não respira, não para.

Há pessoas que conseguem enxergar felicidade mesmo vivendo em condições extremamente difíceis. Outras, assim como o homem do esbarrão, jogam no lixo a possibilidade de serem felizes, dramatizando toda e qualquer situação.

Quando deixamos de respeitar nosso mundo interno de sonhos, sentimentos, imagens e sensações começamos a nos perder de nós mesmos. A maioria das pessoas tem apenas uma consciência periférica do que significa a sua existência. Um esbarrão, e esse mundo desmorona.

Um olhar sobre a nossa fisiologia e sobre o que existe de selvagem em nós é sempre necessário. Guardamos em nosso cérebro porções involuntárias e instintivas. E quando nos sentimos ameaçados nossa reação pode ser a diferença entre o que nos mantém vivos ou o que nos aprisionará num eterno reviver de um trauma.
Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.