Tempo de mudança

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Existe uma força impulsiva que habita cada ser humano, um lado que se contrapõe ao que há de conservador e realista. Nessa dança gira o destino. A cautela faz frente ao ímpeto de mergulhar rumo ao desconhecido. Abrir um novo capítulo da vida pode exigir enfrentamento e momentos de crise, necessários para a libertação.

Sensações como medo, desequilíbrio, sofrimento e ansiedade são reconhecidas como parte dessas crises que transformam. São etapas que cumprem um importante papel de reestruturação em qualquer campo da vida, questões afetivas ou profissionais. A leitura do mito grego de Dionísio remete a esses períodos de grande turbulência.

Deus do vinho, filho de Zeus e da mortal Sêmele, Dionísio tem uma história envolta em tragédia desde a concepção. Sua jornada é intensa, ambígua e envolta pelo manto da loucura. Ao olhar esse mito enxergamos o caos das grandes transformações. Antes de ocupar seu lugar no Olimpo, à direita de Zeus, a divindade renasceu no submundo e passou por enormes provações. A sombra e a luz que habitam os seres humanos integram esse deus jovem e criativo.

No livro ‘A Caminho da Autotransformação’, Eva Pierrakos avalia que qualquer forma de manifestação de uma crise vem acompanhada da necessidade de rompimento de velhas estruturas. Uma crise pode ser capaz de sacudir hábitos arraigados e impulsionar para o crescimento. É a mola propulsora da transformação.

Na tentativa de ajudar quem está passando por um momento turbulento, deve-se ter em mente que a ajuda não deve impedir o processo de mudança. Há momentos em que o sofrimento é necessário para que haja a tomada de consciência, como parte da busca pela saída do estado de paralisia que escraviza, assim como Dionísio saiu do submundo e emergiu ao Olimpo.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Psicoterapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

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Pachamama e o processo de cura

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Povos muito antigos já tinham compreensão de que processos de cura se dão de forma integral. A mitologia é prova disso. Essa consciência de totalidade tem sido esquecida ao longo do tempo, criando um descompasso. Problemas de saúde vêm sendo tratados de forma isolada, mascarando sintomas. Pensar saúde e bem-estar também inclui a compreensão dos aspectos emocionais, relacionais e que transcendem as construções mentais de cada um.

Na mitologia dos povos anteriores aos incas no Peru e na Bolívia, uma deusa dragão com nome Pachamama traz a representação do aspecto de cura enquanto totalidade. Adorada como simbolismo do planeta Terra, a divindade, quando não respeitada, enviava terremotos e outras tormentas. Do ponto de vista simbólico, esse mito trata da importância do entendimento do ser humano na sua integralidade, no respeito à sua saúde como algo sagrado, aspecto a ser reverenciado.

A psicoterapia não exclui a necessidade de acompanhamento médico e não serve ao propósito de aliviar dores físicas, mas tratar as emoções pode contribuir para a cura. No livro ‘Terapia Holística Alliyana’, o médico holístico, homeopata e psicoterapeuta transpessoal Juan Danilo Rodrigues, considera que o restabelecimento da saúde passa pela compreensão dos problemas relacionados a crenças, aprendizados e desordens emocionais.

Rodrigues explica que a palavra Alliyana, na língua dos nativos quíchuas, significa sarar, com um sentido de esclarecer, trazer à consciência. Segundo o médico, quando um propósito é focado, o sistema nervoso central é influenciado e passa a sentir a mudança. Assim se dá o processo de informação que auxilia a cura. Mascarar sintomas pode ser a pior alternativa, ou seja, tentar não perceber o terremoto simbólico da deusa dragão Pachamama.

 

Texto escrito por Daniella Sinotti, terapeuta transpessoal sistêmica e jornalista.

 

O homem que vestia burca

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João, prestes a completar 50 anos, divorciado, procurou ajuda psicoterapêutica para tratar de uma estranha obsessão. Depois de apresentar um seminário sobre Revolução do Irã e os preceitos religiosos do islamismo, a burca passou a ser seu objeto de desejo. Toda tarde, vestia o traje longo que deixava os olhos descobertos, e caminhava pela orla da cidade. Sentia prazer e algum desconforto com o clima quente.
Perturbações físicas, dores de cabeça e dores abdominais eram o sinal diário para acender o desejo de vestir a burca. Mudava a roupa e era tomado por uma plenitude, na qual não havia espaço para constrangimentos. Ao caminhar, João tinha certeza de que uma parte sua ficava isolada no apartamento, um João triste, sombra de um passado criado para não parecer indesejável.
Enquanto caminhava, enfrentava sem medo o mundo de julgamentos e preconceitos. Ao ouvir comentários jocosos e perceber a malícia nos olhares dos que cruzavam seu caminho, João era tomado por uma louca sensação de liberdade, um impulso de não ter de agradar alguém pra se sentir feliz. Ele reconhecia a maldade alheia, mas não precisava ser complacente.
Algumas mulheres o fitavam com desconfiança e até mencionavam o temor de um atentado terrorista. Numa tarde, um homem parou o carro e fez um chamado para que ele entrasse, com gestos obscenos e um sorriso malicioso. Intrigado, o homem de burca olhou fixamente o motorista e pensou que as ações inescrupulosas escondem pedidos de atenção. João continuou sua caminhada.
Na praça, crianças jogavam bola sem dar muita atenção a quem passava. João parou para brincar com os meninos. A única pergunta que ouviu foi sobre o calor daquele traje preto e longo. Percebeu que a liberdade que sentia com a burca era algo que se aproximava dessa alegria infantil. Era isso que ele que desejava.
Ao expor seu estranho desejo e refletir sobre o real sentimento em relação à burca, João passou a questionar muitos impulsos e comportamentos que o acompanharam por toda a vida, mas que aos poucos deixaram de fazer sentido. Aquele homem de burca era uma parte dele que nunca teve lugar ao sol.
Seus medos e desejos, abominados ao longo de décadas, escondiam seu potencial criativo, alegre e humano. João percebeu que passou parte de sua vida vivendo como um robô, vestindo máscaras que serviam para agradar algumas pessoas que ele considerava importantes. Temporariamente aliviado quando usava a burca, ele seguia solitário.⁠⁠⁠⁠

Texto escrito por Daniella Sinotti, Psicoterapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

 

 

A armadilha da medicalização excessiva de crianças e adolescentes

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Um alfaiate queria muito vender um colete. Um homem experimentou e percebeu uma irregularidade na parte inferior, mas foi convencido pelo alfaiate a abaixar o ombro. Viu que a lapela estava enrolada, mas atendeu à sugestão de abaixar a cabeça para que ninguém percebesse. Sentiu que o gancho apertava e cedeu à recomendação de puxar com uma das mãos. Feito isso, comprou o terno defeituoso e saiu às ruas. Ao ver o homem, todos sussurravam sobre o belo terno trajado pelo aleijado.

Assim como o rapaz que comprou o terno, a competição instalada no mundo escolar, acadêmico e corporativo tem gerado uma demanda por fármacos que quase sempre mascaram uma realidade de angústias. A excessiva medicalização de crianças e adolescentes, sem criteriosa avaliação e acompanhamento médico, precisa ser amplamente discutida. Num horizonte próximo podemos ter gerações de adultos com sérios problemas emocionais, sobretudo transtornos de ansiedade e depressão.

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde indicam que o Brasil é o segundo mercado mundial no consumo do metilfenidato, utilizado no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). O aumento de consumo em pouco mais de dez anos foi de 775%. O padrão de alta competitividade no ambiente escolar trouxe inversão de valores éticos e morais, que adoece as crianças, ao tempo em que enriquece a indústria de fármacos. Essa é uma guerra que deixa consequências nefastas.

Educar não deve ser apenas transformar alunos em depósitos de informações. Abrir o diálogo para compreender as relações no ambiente escolar e familiar, e contextualizar os dramas que acontecem nesses espaços é um desafio necessário. O médico psiquiatra Içami Tiba, no livro ‘Disciplina, limite na medida certa’, reforça a importância da complementaridade e da contextualização hierárquica e de autoridade. O aprendizado também é reflexo do equilíbrio físico, mental e emocional.

Escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

‘Saint Amor – na Rota do Vinho’, dramas do homem contemporâneo

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Dramas vividos por homens de diferentes idades e a forma como se estabelecem as relações entre eles no campo familiar e afetivo fazem parte do filme francês ‘Saint Amour – Na Rota do Vinho’, dirigido por Benoît Delépine e Gustave Kervern. Jean (Gérard Depardieu) e Bruno (Benoît Poelvoorde), pai e filho, agricultores, seguem numa viagem com o taxista parisiense Mike (Vincent Lacoste) pela região vinícola da França.

Demonstrar afeto nas relações masculinas ainda é um tabu, seja entre amigos ou membros de uma mesma família. Amor e afeto entre pai e filho são a tônica dessa comédia que, de forma despretensiosa e leve, compreende dilemas que podem dar origem a escapismos e comportamentos extremados, sobretudo o medo da não compreensão ou inadequação aos padrões estabelecidos para o chamado mundo masculino.

Na trama, o taxista Mike também surpreende. O galanteador, que coleciona romances e consegue seduzir as mulheres, aos poucos revela sua essência, dramas e carências. O personagem narcisista e conquistador, assim como homens e mulheres que buscam na sedução uma arma, também é refém de convenções que aprisionam e fazem sofrer.

Sempre na perspectiva dos personagens masculinos, os dramas da morte da mãe e esposa, o sofrimento da jovem que perdeu tudo, a mulher traída e o desejo da maternidade são parte da trama. Ainda que o filme não traga grandes pretensões para um aprofundamento de questões comportamentais, serve como reflexão para os dramas e dilemas enfrentados pelos homens na atualidade, ainda reféns de uma sociedade que não compreende que os princípios de amor e ódio, guerra e paz, precisam estar em harmonia.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Psicoterapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista

Ana e a sexta-feira

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Ana, 32 anos, se queixava de um vazio que ficava cada vez mais insuportável. O quadro piorava quando o fim de semana estava próximo. Na sexta-feira, as dores de cabeça e o mau-humor se instalavam. Depois de trabalhar a semana inteira, seu único tempo livre era destinado a cuidar de sua vida prática. De vez em quando, sentia saudade do tempo em que tinha uma vida social mais intensa, quando saía pra dançar e via seus amigos.
Ao começar a faxina da sexta-feira, Ana olhou fixamente para o calendário que ganhou de uma amiga que havia voltado de Londres. “Friday”, foi a palavra que chamou sua atenção. Olhou fixamente, lembrou de uma história sobre a origem do nome sexta-feira em inglês. “Friday” é uma alusão à deusa Fréia, que significa “amante”. Ela é o arquétipo da deusa mãe ligado à sensualidade, envolta em um manto de plumas e um colar mágico de âmbar ao qual ninguém pode resistir.
Ao entrar em contato com a deusa Fréia, Ana se lembrou que a energia da sexualidade faz parte da criação e é uma dádiva. Sentiu uma eletricidade tomar conta de todo o seu corpo. Passou seu batom mais vermelho, ligou o som, começou a dançar e entrou num êxtase profundo. Lembrou que ritos de prazer existem pra que a vida se expresse em sua forma mais plena.
Ana então decidiu se entregar à energia da sensualidade. Passou a celebrar cada sexta-feira como um dia de prazer num sentido profundo. Isso não a tornaria uma menina má. Desde então, descobriu que liberdade é muito mais um estado de espírito do que dinheiro no banco e as satisfações a dar.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

Vítimas de crimes sexuais como reféns do medo e da culpa

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A cada notícia que surge trazendo um possível caso de abuso sexual, sobretudo envolvendo menores de idade, há pessoas que apontam o dedo no sentido de culpar a vítima. Alguns dados divulgados recentemente pelo Ministério da Saúde ajudam a entender o panorama dos crimes sexuais no Brasil. O levantamento aponta que 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes. Metade são menores com histórico de estupros anteriores, quase sempre por um familiar ou por alguém muito próximo da vítima e de sua família.
Nem todos os pais conseguem acompanhar todos os deslocamentos de seus filhos menores de idade, ainda que o zelo pela integridade física e moral seja um dever. Para grande parte da população, a solução é o uso dos meios públicos ou alternativos de transporte, ou caronas. Vale lembrar que agressores costumam se utilizar da confiança da família para cometer abusos. Essas situações acontecem em igrejas, clubes, escolas, nos condomínios fechados e, principalmente, no ambiente doméstico. Culpar a vítima ajuda a contribuir para o sofrimento de quem precisa ser amparado num momento de angústia.
Mulheres enfrentam séculos de subserviência, terror e dominação. Questões dessa natureza não se apagam sem deixar rastros. Resta o poder do grito de liberdade, um chamado para um tempo de maior equilíbrio e consciência. Peter Levine, no livro A Cura do Trauma, traz uma série de considerações relevantes sobre o comportamento de vítimas e algozes. Ele lembra que pessoas repetidamente sobrecarregadas ficam em estado de ansiedade e impotência e se tornam presas fáceis. O comportamento de vítima potencializa a ação de criminosos.
Temas que envolvem sexualidade são envoltos em tabus. Isso costuma dificultar reflexões mais profundas e criteriosas acerca desse tema. É importante lembrar que em cada caso de abuso há alguém que precisa de cuidados e de acompanhamento profissional. Sintomas de ordem física e mental geram impactos que afetam a vítima e todos ao seu redor.

Sombra coletiva: ódio e intolerância na ordem do dia

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O ódio e a intolerância estão entre os temas mais comentados nas redes sociais em todo o mundo, principalmente por conta dos recentes fatos que envolvem supremacistas brancos nos Estados Unidos e os ataques terroristas na Europa. Medo, raiva e violência, quando surgem coletivamente, trazem à tona algo de sombrio da natureza humana, uma caixa de Pandora. O que resta é a esperança.
O que Carl Jung denominou de sombra coletiva é um mal que pode se espalhar como um câncer na coletividade. Enquanto seitas fundamentalistas se alastram pregando a dualidade como forma de combater o mal, ele continua crescendo. Seres humanos têm desejos que podem ser desprovidos de sentido. Pouco adianta insistir em sentimentos de pecado e culpa, ou negar a existência da parte sombria.
O desenvolvimento tecnológico e as descobertas científicas que proporcionam grandes avanços não são acompanhados por uma evolução emocional e espiritual da mesma proporção. Esse é um dilema que tem ocupado estudiosos do comportamento humano de diferentes escolas filosóficas.
A mente humana se ocupa de dilemas básicos e pueris. Experiências históricas vivenciadas nos períodos de guerra, holocausto e escravidão deixam marcas, mas não dão luz à sombra de forma definitiva. A esperança reside em crer que a roda da vida, quando gira, volta um pouco acima da posição anterior, num lento ciclo de evolução.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

Sonhos com cobras e serpentes, um convite para o despertar

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Serpentes e cobras, quando surgem em sonhos, podem vir à tona como uma provocação. São imagens reveladoras da integração entre o consciente e o inconsciente, parte da tomada de consciência das manifestações de arquétipos inconscientes da psique. Refletem a alma humana, povoada por imagens e símbolos carregados de metáforas que podem remeter a questões relacionadas aos complexos e seus aspectos conscientes e inconscientes.

Símbolos que surgem em sonhos não devem ser avaliados apenas como verbetes de um dicionário. Ainda que elementos simbólicos e arquetípicos como cobras e serpentes apresentem algo relacionado a uma necessidade de mudança de estilo de vida e revisão de valores, uma leitura terapêutica precisa ter como base os aspectos individuais. É preciso levar em conta a rotina e as queixas de cada pessoa. Além disso, o sentimento em relação ao sonho é outro aspecto bastante revelador. Trabalhar esses conteúdos exige sensibilidade, além do conhecimento teórico.

Sonhos com serpentes e cobras intrigam ou amedrontam, instigam a curiosidade sobre a revelação de algo que diz respeito à essência da psique ou questões do mundo interno e do cotidiano. Há aspectos simbólicos desses animais enquanto representação da energia de vida, da libido, ou até mesmo de um plano de ascensão e dinamismo mental superior relacionado a algum tipo de iluminação.

Serpentes que povoam os mitos e lendas de diversas culturas em todo o mundo guardam correlação com a dualidade, a morte, a destruição, ao mesmo tempo à cura e renovação. Na Mesopotâmia, 2000 a.C., a grande deusa serpente Ningishzida era reverenciada. Sua imagem deu origem ao símbolo do caduceu de Hermes e do Canal de Kundalini no bastão de Esculápio. Essas imagens relacionadas a diversas profissões nasceram sob a égide dessa divindade.

Distante da Mesopotâmia, os astecas adoravam uma deusa mãe chamada Coatlicue, divindade da vida e da morte, figura mitológica que vestia uma saia de serpentes. Cobras saíam de seus braços, pernas e cabeça. Venerada como a deusa do fogo e da fertilidade, do renascimento, padroeira dos partos, da guerra, do governo e da agricultura, ela sofreu o peso da traição por parte dos próprios filhos que tentam matá-la, grávida. Ela resiste e então dá à luz um filho que nasce adulto, um grande guerreiro.

O médico psiquiatra italiano Franco Basaglia (1924 – 1980), no livro ‘A Instituição Negada’ (1968), traz uma fábula oriental sobre a história de um homem que engoliu uma serpente. Alojada no estômago, ela passou a impor a ele sua vontade. Privado de liberdade, ele já não se pertencia. Um dia a serpente o deixa e ele então percebe que não sabe o que fazer com a liberdade. Enquanto se submetia à vontade dela, havia perdido sua capacidade de desejar, de seguir seus impulsos. A saída da serpente deu a ele o vazio. Ele agora precisava se recompor junto com sua nova essência.

Lucy Penna, autora do livro ‘Dance e Recrie o Mundo’, fez um ensaio sobre o significado da serpente enquanto símbolo da vida e da regeneração, manifestação do inconsciente e tendências contemporâneas de homens e mulheres. Para ela, “quando uma pessoa chegar a compreender melhor os seus ritmos de dormir e comer, suas necessidades de lazer, seus ritmos no relacionamento amoroso, ela estará em contato com a serpente interior”.

 

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

Escolha profissional: um drama para muitos adolescentes

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Tenho recebido algumas mensagens de adolescentes angustiados com a questão da escolha de uma profissão. Ao ingressar no Ensino Médio, começam os questionamentos dos familiares e também de colegas e professores sobre uma decisão nesse sentido. Quando essa dúvida se instala, a ajuda terapêutica pode ser de grande valor. Há quem tenha uma vocação explícita desde a infância, ou aqueles que seguem um rumo traçado pela família sem muitos questionamentos, mas existe também o sofrimento diante das inúmeras possibilidades, da dúvida e da cobrança excessiva.
Entre as mensagens, me chamou atenção a de uma jovem que é cobrada pelos pais para ingresse em um curso de Medicina. Ao tempo em que não quer desapontar a família, não tem certeza da aptidão para seguir esse rumo profissional. Pais investem dinheiro na formação escolar dos filhos, mas essa questão não deve ser encarada somente seguindo uma lógica mercantilista. Para o filósofo grego Aristóteles, “poder exercer livremente as próprias aptidões, sejam quais forem, é a verdadeira felicidade”. Esse é um aspecto relevante.
A insatisfação profissional costuma estar relacionada a uma série de problemas de saúde mental. Um levantamento divulgado pela Previdência Social traz dados alarmantes. Transtornos mentais e patologias psiquiátricas originadas pelo descontentamento no trabalho e o estresse ocupacional são a terceira causa de afastamento do trabalho no Brasil. Problemas como depressão, estresse pós-traumático e o consumo excessivo de álcool e outras drogas aparecem no topo desse ranking.
Se a compensação financeira é importante, a necessidade da satisfação pessoal também deve ser levada em conta, tendo em vista que a adolescência é uma fase de transição, quando muitas dúvidas se instalam. Por esses e outros fatores, pode ser muito útil uma investigação mais profunda para cada caso, com auxílio profissional. É tarefa dos pais cuidar do desenvolvimento moral, intelectual e afetivo dos filhos, mas chega um tempo em que cada um precisa responder por suas escolhas.
No livro ‘Aforismos para a sabedoria de vida’, Shopenhauer (1788 – 1860) faz a seguinte reflexão sobre a fonte principal de felicidade humana: “É uma grande insensatez perder no interior para ganhar no exterior, isto é, entregar no todo ou em grande parte sua quietude, seu ócio e sua independência em troca de brilho, posição, pompa, título e honra”. É importante levar em conta que na vida prática, real, quando não há paixão pelo que se faz, a rotina e o cotidiano trazem à tona toda a insatisfação e os processos de angústia.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.