O caminho do autodesconhecimento

Fala-se muito de autoconhecimento. Confesso que esse é um termo que me traz algum incômodo. O que prefiro é o autodesconhecimento, a partir da provocação e da desconstrução de padrões e de crenças que limitam.

Os clichês de autoajuda, as listinhas que prometem o mundo de facilidades e a certeza do sucesso não fazem parte do rol de técnicas que efetivamente ampliam o olhar de alguém que enfrenta dilemas existenciais.

O Olimpo grego nos traz um arquétipo que a meu ver simboliza algo relevante para o processo terapêutico. A deusa Hécate, que também simboliza os caminhos cruzados, é referência do feminino primordial, mistura do caos e das potencialidades do céu, terra e mundo subterrâneo.

A fonte na qual nascem nossas escolhas não passa apenas pelo aspecto racional. O caos, a escuridão, o medo e a ansiedade ajudam a girar a roda que movimenta o processo da escolha de cada caminhar.

Lançar um olhar sobre o que se desconhece em si mesmo pode fazer a grande diferença. Descobrir pode ser melhor do que conhecer.

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O sofrimento da mãe perfeita

To our dearest anita,

Muitas mulheres encaram a maternidade sob a perspectiva da cobrança da perfeição, tendem a sentir o esgotamento de carregar o mundo nas costas, assumindo um papel que pensam ser socialmente adequado. Passam a viver sob o arquétipo da mãe dolorosa, esquecem que a alma feminina possui diversos arquétipos.

Quando nasce um filho, nasce também uma mãe. Nesse momento é natural que passe a existir um novo olhar para o mundo e para a realidade, que pode ser de encantos e dissabores, mas que precisa ser respeitado. Deixar de lado os próprios sonhos pode ser um caminho para a amargura própria de quem se distancia da essência da alma.

Em cada fase da vida surgem novas energias e perspectivas, que são modificadas ao longo da existência, a partir dos papeis que passam a ser exercidos. Toda mãe deve ter respeitada a sua individualidade e aspectos de personalidade. Cada mulher pode ser mãe de um jeito único, o que não anula a sua responsabilidade enquanto alguém que deve zelar pela saúde física e emocional de sua cria.

Pensar sobre seus sonhos, anseios, dons, perspectivas de vida e valores não torna uma mãe melhor ou pior. É preciso manter um diálogo interno que amplie o acesso à chama do desejo de viver plenamente.

 

Texto escrito por Daniella Sinotti, psicoterapeuta e jornalista.

Filhos de pais separados

A cada três casamentos no Brasil, um termina em divórcio, de acordo com dados divulgados pelo IBGE. Mesmo que esteja se tornando habitual, não importa o sexo e a idade, o trauma da separação dos pais costuma ser recorrente em sessões terapêuticas.

Quando não há espaço para o diálogo, cada membro da família tende a se esconder e criar um mundo interno fragmentado. Com isso, resquícios de dor e mágoa perduram. Feridas abertas na alma causam prejuízos se não forem tratadas.

Quando um casal que tem filhos se separa, uma nova ordem familiar é estabelecida. A lógica da psicoterapia sistêmica leva em conta que, ainda que haja a separação do casal, eles precisam continuar unidos enquanto país.

O sofrimento da separação não deve impedir que os adultos enxerguem a sua responsabilidade diante da saúde emocional dos filhos. É preciso lembrar que a hierarquia deve ser respeitada.

As novas regras, pós-separação, devem ter como meta central o bem-estar dos filhos. Nesse caso, é importante não transferir para as crianças a responsabilidade de servir como intermediárias nessa nova ordem da relação.

Por mais difícil que seja, o sofrimento emocional não deve servir como desculpa para que adultos assumam atitudes irresponsáveis, movidas por rancor e mágoa. Ameaças veladas, agressões e desprezo revelam a necessidade de procurar suporte psicoterapêutico.

Quando existe esforço no sentido de organizar a família no seu novo arranjo, levando em conta o bem-estar das crianças acima das desavenças, o saldo costuma ser positivo. Pai e mãe, em companhia ou não de novos companheiros, podem compor uma base de suporte emocional adequado às crianças.

Texto escrito por Daniella Sinotti, jornalista e psicoterapeuta transpessoal sistêmica.

O amor que não percebo

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O amor desempenha um papel fundamental no significado íntimo da felicidade. Recebo muitas mulheres em consultório, que se queixam da falta de afetividade paterna. As feridas que nascem na alma atormentada por esse dilema deixam marcas que costumam afetar relações amorosas e profissionais.

Fui procurada por uma jovem que dizia não ter nenhuma lembrança boa de sua infância. Muitos filmes e o sofá. Nenhum passeio especial, amigos, carinho. Sua queixa central era não conseguir desenvolver afetividade e o temor da solidão.

Um sonho recorrente a atormentava. Ela acordava sempre assustada, na busca por um caderno florido. Num dos sonhos havia uma declaração de amor ao pai.

Em terapia, uma cena de infância foi revelada. A mulher reviveu momentos de quando era bem pequena e o pai cuidava dela aos finais de semana, enquanto a mãe fazia plantões.

Na cena, ela havia sido castigada severamente pelo pai, por ter desenhado uma flor em uma agenda de trabalho.

O fato de ter sua demonstração de afeto castigada a fez desenvolver uma crença equivocada em relação a toda a sua infância.

Ao reviver a cena, ela foi capaz de compreender que aquele havia sido um fato isolado. Na verdade, o amor do pai sempre esteve presente, talvez não da forma como ela gostaria.

 

Texto escrito por Daniella Sinotti, psicoterapeuta.

É só emocional

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Recebi em meu consultório uma senhora que falava baixinho, quase cochichando. Ela dizia não saber mais o que fazer, sentia dores em todo o corpo e os exames não eram conclusivos. Os especialistas disseram a ela que era só emocional. As lágrimas desciam teimosamente depois da confissão.

A senhora se sentia culpada. O fato de sua dor física ser apontada como de origem emocional, veio como uma sentença, com ar de acusação. Como se todos os problemas emocionais surgissem para quem não quer se curar. Quando acompanho algo desse tipo, insisto sempre para que a busca por novos profissionais médicos continue, junto com a psicoterapia.

Culpa e ansiedade ajudam a agravar o sofrimento, atrapalhando o processo de cura. Ainda existe uma ideia equivocada em relação aos problemas emocionais.

Avalio que qualquer problema de saúde tenha um fundo emocional. Isso não dispensa os cuidados médicos tradicionais, ao contrário.

As dores que afetam a alma causam reflexos no corpo. Para que corpo e mente estejam saudáveis, ambos precisam de atenção e cuidado.

Texto escrito por Daniella Sinotti, psicoterapeuta e jornalista.

Salve a Rainha do Mar

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Sempre me encantei com a ideia de uma rainha das águas que recebe oferendas e leva embora as dores e tormentos. Esse simbolismo de Iemanjá, do dia 2 de fevereiro, enche de encanto Baía de Todos os Santos.

Independente de aspectos místicos ou religiosos, vejo que o culto de levar presentes e oferendas e de ressaltar a beleza e o encanto feminino cumpre uma função coletiva. Em tempos de necessidade de resgate da consciência visceral, o apelo a uma mãe que leva embora as cargas pesadas vêm como um grito de libertação e um pedido de socorro.

A imagem arquetípica dessa deusa do mar traz a força da mãe natureza e do ventre que nutre a criação universal. Além disso, esse arquétipo reforça a importância dos ciclos da vida e da reverência aos aspectos de nutrição, proteção, emoção, prazer e alegria.

Seja Nossa Senhora dos Navegantes, Iemanjá, Yara, sereia, Mãe D´Água ou Mama Cocha, que venha neste 2 de fevereiro como a representação da força da vida.

 

Texto escrito por Daniella Sinotti, psicoterapeuta e jornalista.

Luz e sombra: dificuldade em aceitar ou perdoar

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Muito se fala na importância do perdão. Acredito que é preciso aceitar antes de perdoar. É comum lembrar o que os outros nos fizeram, mas raro nos ressentirmos daquilo que fizemos para magoar alguém. Inocência e culpa costumam revelar em que medida a sombra de cada um se expressa numa relação, seja ela familiar, amorosa ou de trabalho.
Como diz Caetano na música ‘Dom de Iludir’, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Todo mundo tem características que aprecia e outras que quer se livrar. Luz e sombras, somos assim. Mudar aquilo que emerge da sombra pode ser algo difícil, mas certamente é um caminho rico e de muita descoberta.
Aceitar a existência da própria sombra pode ser o início do caminho para a aceitação e o perdão. Dessa forma, é possível desnudar o próprio universo povoado de medo, paranoia ou carência, no qual nos sentimos pequenos demais. Quando envoltos na escuridão, não percebemos a capacidade de assumir a força para enfrentar até mesmo pequenos obstáculos.
A psicoterapia pode auxiliar na resolução de conflitos que envolvem questões relacionadas à aceitação e ao perdão. À medida que uma luz é lançada sobre alguns conteúdos sombrios, e que experiências não-assimiladas são revividas e ressignificadas, é possível dar um novo sentido rumo à aceitação e até mesmo o perdão.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Psicoterapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

 

Constelação familiar: um outro olhar sobre os dramas profundos

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Abrir-se para um novo olhar sobre a realidade, essa costuma ser uma das chaves para o sucesso no processo psicoterapêutico. Com essa perspectiva, a constelação familiar, técnica criada pelo alemão Bert Hellinger, vem ganhando cada vez mais adeptos. A constelação pode ser realizada com representantes em encontros, ou em consultório com bonecos e outras ferramentas.

Na constelação cria-se um campo que evidencia, entre outros fatores, situações do sistema familiar, no qual há uma lógica de vínculo e compensação, em que inocentes costumam pagar por culpados. Sob esse prisma, é possível buscar soluções para sofrimentos profundos, dramas familiares, doenças graves, acidentes ou suicídios que se repetem em diferentes gerações.

A consciência humana e seus aspectos essenciais são trabalhados na constelação, de modo a buscar o equilíbrio. Existe diferença entre o que é oculto e o que é sentido no plano da consciência. Isso independe daquilo que é estabelecido como critério lógico ou bom senso, pois essa consciência leva em conta questões da essência da alma humana.

O equilíbrio sistêmico gera bem-estar e pode ser a solução para questões relacionadas à consciência humana nas relações familiares e amorosas, problemas de saúde, perdas e luto, comportamentos destrutivos e sofrimentos emocionais de toda ordem.

Texto escrito por Daniella Sinotti, psicoterapeuta transpessoal sistêmica e jornalista.

O ano termina…

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O período de final de ano provoca angústia em muita gente. As músicas que se repetem nos estabelecimentos comerciais, os encontros familiares, as cobranças, as listas de desejos e o processo de repensar os planos de vida chegam como uma bomba-relógio. Quando uma parte da alma se prende a um aspecto de criança dependente, ela surge em meio à dúvida e ansiedade.

Pensar na felicidade como algo que chega com o emprego novo, a formatura, o casamento ou o nascimento de um filho é apenas parte de um problema maior. Na morada dessa criança dependente ou tirana, a culpa chega como um fardo difícil de carregar, com sentenças dolorosas e baixa autoestima. Para espantar os fantasmas da mente é preciso despir-se da vergonha e do medo de encarar a cobrança e a ilusão.

Autodesconhecimento pode ser a palavra chave para que as pessoas se reconectem com sua verdadeira essência. Descortinar o que é da alma e o que é do ego, por trás da névoa formada pela cobrança interna, é algo que não acontece através de livros de autoajuda. Os fantasmas internos precisam ser revisitados e interpretados para que saiam da sombra. A retomada de uma parte da alma faz parte do processo de maturidade emocional.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Psicoterapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

Confraternização, ritual que ajuda a fechar ciclos

A passagem do ano é importante enquanto momento de ritual que ajuda a fechar um ciclo e abrir uma nova perspectiva para o período que se anuncia. Nas confraternizações, seja em âmbito familiar, empresarial ou de amizades, deve prevalecer o simbolismo da renovação de votos, do reconhecimento dos esforços e da gratidão pelos caminhos percorridos por todos.

Bert Hellinger, pai da Psicoterapia Sistêmica, elabora a solução de problemas e conflitos, tendo como base de seu trabalho as chamadas “Ordens do Relacionamento Humano”. São leis sistêmicas que contribuem para desfazer emaranhados. Essas leis incluem, acima de tudo, respeito ao equilíbrio, hierarquia e o direito ao pertencimento.

Algumas empresas, mesmo durante o ano, promovem eventos, premiações e confraternizações, nas quais deixam de respeitar as leis sistêmicas. É preciso compreender que uma organização é formada por pessoas, cada uma delas com sua história, família, crenças e valores. Nessa perspectiva, para que uma empresa funcione adequadamente, todos precisam ter sua importância reconhecida.

Uma empresa nada mais é do que a união de pessoas. Corporações não funcionam sem esses sistemas interligados. Sob esse prisma, é interessante que possam existir momentos de interação que levem em conta esse olhar mais amplo, desmistificando a lógica da impessoalidade no mundo do trabalho.

Texto escrito por Daniella Sinotti e Lívia Meinking, Psicoterapeutas Transpessoais Sistêmicas.

https://daniellasinotti.wordpress.com/2017/12/18/confraternizacao-ritual-que-ajuda-a-fechar-ciclos/