Vítimas de crimes sexuais como reféns do medo e da culpa

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A cada notícia que surge trazendo um possível caso de abuso sexual, sobretudo envolvendo menores de idade, há pessoas que apontam o dedo no sentido de culpar a vítima. Alguns dados divulgados recentemente pelo Ministério da Saúde ajudam a entender o panorama dos crimes sexuais no Brasil. O levantamento aponta que 70% das vítimas de estupro no Brasil são crianças e adolescentes. Metade são menores com histórico de estupros anteriores, quase sempre por um familiar ou por alguém muito próximo da vítima e de sua família.
Nem todos os pais conseguem acompanhar todos os deslocamentos de seus filhos menores de idade, ainda que o zelo pela integridade física e moral seja um dever. Para grande parte da população, a solução é o uso dos meios públicos ou alternativos de transporte, ou caronas. Vale lembrar que agressores costumam se utilizar da confiança da família para cometer abusos. Essas situações acontecem em igrejas, clubes, escolas, nos condomínios fechados e, principalmente, no ambiente doméstico. Culpar a vítima ajuda a contribuir para o sofrimento de quem precisa ser amparado num momento de angústia.
Mulheres enfrentam séculos de subserviência, terror e dominação. Questões dessa natureza não se apagam sem deixar rastros. Resta o poder do grito de liberdade, um chamado para um tempo de maior equilíbrio e consciência. Peter Levine, no livro A Cura do Trauma, traz uma série de considerações relevantes sobre o comportamento de vítimas e algozes. Ele lembra que pessoas repetidamente sobrecarregadas ficam em estado de ansiedade e impotência e se tornam presas fáceis. O comportamento de vítima potencializa a ação de criminosos.
Temas que envolvem sexualidade são envoltos em tabus. Isso costuma dificultar reflexões mais profundas e criteriosas acerca desse tema. É importante lembrar que em cada caso de abuso há alguém que precisa de cuidados e de acompanhamento profissional. Sintomas de ordem física e mental geram impactos que afetam a vítima e todos ao seu redor.

Sombra coletiva: ódio e intolerância na ordem do dia

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O ódio e a intolerância estão entre os temas mais comentados nas redes sociais em todo o mundo, principalmente por conta dos recentes fatos que envolvem supremacistas brancos nos Estados Unidos e os ataques terroristas na Europa. Medo, raiva e violência, quando surgem coletivamente, trazem à tona algo de sombrio da natureza humana, uma caixa de Pandora. O que resta é a esperança.
O que Carl Jung denominou de sombra coletiva é um mal que pode se espalhar como um câncer na coletividade. Enquanto seitas fundamentalistas se alastram pregando a dualidade como forma de combater o mal, ele continua crescendo. Seres humanos têm desejos que podem ser desprovidos de sentido. Pouco adianta insistir em sentimentos de pecado e culpa, ou negar a existência da parte sombria.
O desenvolvimento tecnológico e as descobertas científicas que proporcionam grandes avanços não são acompanhados por uma evolução emocional e espiritual da mesma proporção. Esse é um dilema que tem ocupado estudiosos do comportamento humano de diferentes escolas filosóficas.
A mente humana se ocupa de dilemas básicos e pueris. Experiências históricas vivenciadas nos períodos de guerra, holocausto e escravidão deixam marcas, mas não dão luz à sombra de forma definitiva. A esperança reside em crer que a roda da vida, quando gira, volta um pouco acima da posição anterior, num lento ciclo de evolução.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

Sonhos com cobras e serpentes, um convite para o despertar

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Serpentes e cobras, quando surgem em sonhos, podem vir à tona como uma provocação. São imagens reveladoras da integração entre o consciente e o inconsciente, parte da tomada de consciência das manifestações de arquétipos inconscientes da psique. Refletem a alma humana, povoada por imagens e símbolos carregados de metáforas que podem remeter a questões relacionadas aos complexos e seus aspectos conscientes e inconscientes.

Símbolos que surgem em sonhos não devem ser avaliados apenas como verbetes de um dicionário. Ainda que elementos simbólicos e arquetípicos como cobras e serpentes apresentem algo relacionado a uma necessidade de mudança de estilo de vida e revisão de valores, uma leitura terapêutica precisa ter como base os aspectos individuais. É preciso levar em conta a rotina e as queixas de cada pessoa. Além disso, o sentimento em relação ao sonho é outro aspecto bastante revelador. Trabalhar esses conteúdos exige sensibilidade, além do conhecimento teórico.

Sonhos com serpentes e cobras intrigam ou amedrontam, instigam a curiosidade sobre a revelação de algo que diz respeito à essência da psique ou questões do mundo interno e do cotidiano. Há aspectos simbólicos desses animais enquanto representação da energia de vida, da libido, ou até mesmo de um plano de ascensão e dinamismo mental superior relacionado a algum tipo de iluminação.

Serpentes que povoam os mitos e lendas de diversas culturas em todo o mundo guardam correlação com a dualidade, a morte, a destruição, ao mesmo tempo à cura e renovação. Na Mesopotâmia, 2000 a.C., a grande deusa serpente Ningishzida era reverenciada. Sua imagem deu origem ao símbolo do caduceu de Hermes e do Canal de Kundalini no bastão de Esculápio. Essas imagens relacionadas a diversas profissões nasceram sob a égide dessa divindade.

Distante da Mesopotâmia, os astecas adoravam uma deusa mãe chamada Coatlicue, divindade da vida e da morte, figura mitológica que vestia uma saia de serpentes. Cobras saíam de seus braços, pernas e cabeça. Venerada como a deusa do fogo e da fertilidade, do renascimento, padroeira dos partos, da guerra, do governo e da agricultura, ela sofreu o peso da traição por parte dos próprios filhos que tentam matá-la, grávida. Ela resiste e então dá à luz um filho que nasce adulto, um grande guerreiro.

O médico psiquiatra italiano Franco Basaglia (1924 – 1980), no livro ‘A Instituição Negada’ (1968), traz uma fábula oriental sobre a história de um homem que engoliu uma serpente. Alojada no estômago, ela passou a impor a ele sua vontade. Privado de liberdade, ele já não se pertencia. Um dia a serpente o deixa e ele então percebe que não sabe o que fazer com a liberdade. Enquanto se submetia à vontade dela, havia perdido sua capacidade de desejar, de seguir seus impulsos. A saída da serpente deu a ele o vazio. Ele agora precisava se recompor junto com sua nova essência.

Lucy Penna, autora do livro ‘Dance e Recrie o Mundo’, fez um ensaio sobre o significado da serpente enquanto símbolo da vida e da regeneração, manifestação do inconsciente e tendências contemporâneas de homens e mulheres. Para ela, “quando uma pessoa chegar a compreender melhor os seus ritmos de dormir e comer, suas necessidades de lazer, seus ritmos no relacionamento amoroso, ela estará em contato com a serpente interior”.

 

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

Escolha profissional: um drama para muitos adolescentes

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Tenho recebido algumas mensagens de adolescentes angustiados com a questão da escolha de uma profissão. Ao ingressar no Ensino Médio, começam os questionamentos dos familiares e também de colegas e professores sobre uma decisão nesse sentido. Quando essa dúvida se instala, a ajuda terapêutica pode ser de grande valor. Há quem tenha uma vocação explícita desde a infância, ou aqueles que seguem um rumo traçado pela família sem muitos questionamentos, mas existe também o sofrimento diante das inúmeras possibilidades, da dúvida e da cobrança excessiva.
Entre as mensagens, me chamou atenção a de uma jovem que é cobrada pelos pais para ingresse em um curso de Medicina. Ao tempo em que não quer desapontar a família, não tem certeza da aptidão para seguir esse rumo profissional. Pais investem dinheiro na formação escolar dos filhos, mas essa questão não deve ser encarada somente seguindo uma lógica mercantilista. Para o filósofo grego Aristóteles, “poder exercer livremente as próprias aptidões, sejam quais forem, é a verdadeira felicidade”. Esse é um aspecto relevante.
A insatisfação profissional costuma estar relacionada a uma série de problemas de saúde mental. Um levantamento divulgado pela Previdência Social traz dados alarmantes. Transtornos mentais e patologias psiquiátricas originadas pelo descontentamento no trabalho e o estresse ocupacional são a terceira causa de afastamento do trabalho no Brasil. Problemas como depressão, estresse pós-traumático e o consumo excessivo de álcool e outras drogas aparecem no topo desse ranking.
Se a compensação financeira é importante, a necessidade da satisfação pessoal também deve ser levada em conta, tendo em vista que a adolescência é uma fase de transição, quando muitas dúvidas se instalam. Por esses e outros fatores, pode ser muito útil uma investigação mais profunda para cada caso, com auxílio profissional. É tarefa dos pais cuidar do desenvolvimento moral, intelectual e afetivo dos filhos, mas chega um tempo em que cada um precisa responder por suas escolhas.
No livro ‘Aforismos para a sabedoria de vida’, Shopenhauer (1788 – 1860) faz a seguinte reflexão sobre a fonte principal de felicidade humana: “É uma grande insensatez perder no interior para ganhar no exterior, isto é, entregar no todo ou em grande parte sua quietude, seu ócio e sua independência em troca de brilho, posição, pompa, título e honra”. É importante levar em conta que na vida prática, real, quando não há paixão pelo que se faz, a rotina e o cotidiano trazem à tona toda a insatisfação e os processos de angústia.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

Ísis e os novos padrões de comportamentos de homens e mulheres

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“Se entoarmos a canção da consciência até sentirmos o ardor da verdade, estaremos lançando uma labareda pra dentro das trevas da psique de modo a poder ver o que estamos fazendo”  (Clarissa Pinkola Estés)

Os relatos e desabafos de mães, solteiras ou não, diante do cansaço e da ausência paterna na vida e no cotidiano dos filhos têm sido cada vez mais constantes nos espaços virtuais. Ser mãe e exercer tarefas que poderiam caber aos pais gera sobrecarga e angústia. A imagem da mãe rainha do lar, uma quase escrava, resquício da mãe dolorosa e sofredora, legado da cultura cristã patriarcal, ainda molda os parâmetros da condição de mãe nos dias atuais.
Por outro lado, um assunto que tem ganhado memes e polêmicas, diz respeito à necessidade de novos parâmetros para o comportamento masculino e à expectativa das mulheres. Nas redes sociais, é crescente a admiração ao apresentador de programa culinário e ator Rodrigo Hilbert, marido da apresentadora Fernanda Lima. Ele costuma expor suas habilidades na cozinha e em afazeres domésticos variados.
Mães solteiras e homens habilidosos em afazeres domésticos sempre existiram. A novidade está em discutir mais abertamente as angústias geradas a partir da expectativa de mulheres e homens quando assumem papeis que fogem do que foi estabelecido como convencional. Apesar da liberdade para assumir esses novos papeis, continuamos presos a uma mentalidade que impõe expectativas limitantes e a falta de equilíbrio nas relações.
Em entrevista a um portal de notícias, Hilbert desconstruiu o rótulo que ganhou na internet de “homão da porra”. Segundo ele, tarefas como cuidar dos filhos, construir casa na árvore, cozinhar, fazer ioga e crochê foram habilidades aprendidas com a mãe, avó e tias, numa família onde predominou o mundo feminino, sem homens machistas. A psicoterapia sistêmica de Bert Hellinger defende que costuma haver uma honra estabelecida pelos filhos em relação aos comportamentos dos pais, sejam eles bons ou ruins.
Sobre o crescente descontentamento das mulheres que assumem tarefas demais, sem auxílio dos pais, é preciso lembrar que o arquétipo da mãe sofredora, presente em diversas culturas, tem sido evidenciado ao longo dos séculos, sobretudo pela sociedade patriarcal cristã. A analista suíça Toni Wolff, colaboradora de Carl Jung, ainda na década de 1950, abordou as formas estruturais da psique feminina e as chagas das mulheres contemporâneas que assumem a direção da família e da realização profissional e pessoal. Ainda que a frustração divulgada em posts nas redes sociais seja novidade, essa é uma questão antiga.
Para uma reflexão sobre esse tema, uma proposta é o estudo mais aprofundado do mito egípcio de Ísis, deusa mãe e do amor, mulher de Osíris, que foi morto e despedaçado pelo irmão, Seth. A deusa, que havia conhecido a felicidade perfeita, resolveu procurar o seu marido, a fim de lhe restituir o sopro da vida. Osíris foi trazido de volta por meio da magia e das artes da cura, com seus pedaços juntados, exceto o pênis, que foi substituído por um membro de ouro. Na era cristã, muitos templos da deusa Ísis foram transformados em igrejas cristãs e tiveram sua imagem substituída por Maria com o menino Jesus, a Mater Dolorosa.
Ao repensar o mito de Ísis, percebe-se que sua imagem de mulher que busca resgatar e reconstituir a integralidade dos aspectos femininos e masculinos foi suprimida pela mãe dolorosa e sofredora na era cristã. Ainda carregamos o peso do obscurantismo. Ao resgatar Ísis, deixa-se de lado a mãe dolorosa, para juntar os pedaços daquilo que entende-se como o papel masculino. Ao oferecer cuidados maternais, não é necessário esquecer as próprias necessidades, deixando espaço para que se instale a falta de equilíbrio entre o dar e o receber, princípio básico para a saúde das relações.

Psicoterapia: diferentes tipos de abordagem

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A psicoterapia tem diferentes tipos de abordagens, enfoques e visões, com base em fundamentos teóricos de vertentes filosóficas de diversas origens. Essas são informações pouco divulgadas e é comum que as pessoas façam confusão sobre como se dá o trabalho terapêutico. De forma breve, tentarei esclarecer algumas diferenças no campo de atuação entre abordagens psicoterapêuticas, pois tenho recebido mensagens com dúvidas a esse respeito.
A Terapia Transpessoal Sistêmica (TTS), área na qual atuo, é uma abordagem psicoterapêutica sintetizada por Jordan Campos. A TTS se utiliza de uma abordagem intensa, com processos que visam acesso aos conteúdos inconscientes por meio de técnicas de terapia regressiva, reprogramação mental, iridologia, constelação familiar e biopsicossomática. O objetivo central é o de localizar conflitos e experiências e transformá-los em ferramentas de autoconhecimento e cura. Seus fundamentos teóricos são baseados em estudos de autores consagrados no campo da psicologia, como Carl Jung e Sigmund Freud e também estudiosos que ganham cada vez mais destaque, como Bert Hellinger, Hans TenDan, Peter Levine, entre outros.
Carl Jung, citado acima como um dos autores que dão base teórica à TTS, deu origem à abordagem terapêutica junguiana. O médico alemão, nascido em 1875, instituiu um aprofundamento da visão para dimensões mais profundas da vida psíquica. Terapeutas de abordagem junguiana trabalham, entre outros pontos, análise de sonhos através de arquétipos e conhecimentos relativos à sincronicidade do universo, incluindo estudos dos tipos psicológicos, energia psíquica consciente e inconsciente, símbolos e religião, entre outros.
Já a psicoterapia de abordagem freudiana, na qual se encontra a psicanálise tradicional dos estudos de Sigmund Freud, é tradicionalmente utilizada por psicanalistas clássicos ou integrativos. O trabalho desses profissionais tem base central na escuta das queixas e observação da fala dos pacientes. O profissional chama a atenção para pontos que considera importantes e trabalha, entre outras questões, a infância, repressões sexuais, psicopatologias e desejos escondidos no inconsciente. No campo da psicanálise integrativa, outras abordagens são incluídas.
Existem profissionais em terapia holística que seguem diferentes linhas de abordagem. Esse campo teve um grande crescimento, com técnicas variadas. Já existe uma legislação que atua no campo das práticas integrativas de saúde e que tem como princípio ampliar as práticas de saúde que tem base filosófica o trabalho do homem como ser integral. São consideradas técnicas holísticas a regressão, vivências humanistas, astrologia, cromoterapia, musicoterapia, cura prânica e uma série de outras práticas. Esse campo de atuação vem crescendo com a regulamentação e a inclusão na rede de atenção à saúde pública em todo o país.
Sobre a atuação do psicólogo, profissional graduado em Psicologia, trata-se de um amplo campo de atuação, que inclui também a psicoterapia de abordagens de diferentes tipos. É preciso esclarecer que nem todo psicólogo atua na área clínica. Esse é um campo de formação vasto, no qual o profissional pode atuar no diagnóstico, prevenção e tratamento de doenças mentais, de personalidade ou distúrbios emocionais. O psicólogo pode exercer funções relacionadas à psicologia clínica e também em áreas segmentadas, a exemplo da esportiva, hospitalar, educacional, psicomotricidade, jurídica, organizacional, do trabalho, saúde e orientação profissional.
No livro Linguagem do Corpo, a autora Cristina Cairo faz uma explanação sobre diversas abordagens psicoterapêuticas e a importância da ajuda profissional em alguns momentos da vida, sobretudo quando se instalam processos de desordem emocional e mental. “Caso você já tenha tentado sair da depressão sozinho e escolheu o caminho das drogas, do álcool, das festas constantes, da música alta para não ouvir a voz da angústia, saiba que a depressão poderá aumentar sem que você perceba”, alerta a autora.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

Traição e dor: a parábola e a verdade

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Superar a dor e o trauma da traição e do fim de um relacionamento amoroso costuma implicar em sofrimento. Mulheres e homens de diferentes idades recorrem ao auxílio terapêutico para tratar das dores do amor. Crimes passionais motivados por crises de ciúme são noticiados com certa frequência, nas principais cidades e em todos os estados do país, uma mostra clara do perigo do despreparo emocional.

A despeito de todas as mudanças que ocorreram nos padrões dos relacionamentos nas últimas décadas, e do aumento da aceitação de novas possibilidades no campo afetivo, costuma ser devastadora a dor causada pela rejeição e o sofrimento diante do desapontamento e da decepção amorosa. Abrir-se para a cura desse tipo de situação traumática pode levar tempo, é algo que não vem de fora, trata-se de um processo de ressignificação.

Não existe solução única e perfeita para tratar crises conjugais ou traições e separações. Cada caso precisa ser examinado de forma isolada, levando-se em conta o histórico da relação e as características psicológicas dos parceiros. Livros de autoajuda que prometem o casamento duradouro e perfeito normalmente não passam de um amontoado de conselhos retirados de antigas revistas femininas, com toques clichês baseados em fórmulas prontas de felicidade.

Encarar as dores da alma, as sombras que se escondem no medo e na vaidade fazem parte de um processo doloroso, mas que costuma render os excelentes frutos do autoconhecimento. É uma viagem dura, mas com um retorno altamente positivo. O uso de medicamentos pode ajudar em alguns casos, sobre isso cabe sempre uma avaliação médica criteriosa. O processo da cura, entretanto, se dá quando a verdade é encarada.

‘A Verdade e a Parábola’ é uma historinha que ilustra bem essa necessidade em não encarar a realidade, o que também se aplica à necessidade de encarar os relacionamentos amorosos sob a ótica da ilusão. Um dia, a Verdade decidiu visitar os homens, sem roupas e sem adornos, tão nua como seu próprio nome. E todos que a viam lhe viravam as costas de vergonha ou de medo, e ninguém lhe dava as boas-vindas. Assim, a Verdade percorria os confins da Terra, criticada, rejeitada e desprezada. Uma tarde, muito desconsolada e triste, encontrou a Parábola, que passeava alegremente, trajando um belo vestido e muito elegante.

— Verdade, por que você está tão abatida? — perguntou a Parábola.

— Porque devo ser muito feia e antipática, já que os homens me evitam tanto! — respondeu a amargurada Parábola.

— Que disparate! — Sorriu a Parábola. — Não é por isso que os homens evitam você. Tome. Vista algumas das minhas roupas e veja o que acontece.

Então, a Verdade pôs algumas das lindas vestes da Parábola, e, de repente, por toda parte onde passava era bem-vinda e festejada.

Quase sempre é difícil encarar a verdade sem adornos. Ao disfarçar a natureza sombria, os sentimentos são mascarados e os relacionamentos ficam envoltos em mentiras, com cada um permanecendo inconsciente do que habita em si. Para alargar a consciência, é preciso lançar luz nos esconderijos sombrios, inclusive lado escuro projetado nos que fazem parte do convívio cotidiano.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista

Os véus da ilusão da deusa Maya

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“Aquilo que à gente do mundo sensorial parece ser real e verdadeiro, para o sábio é ilusão: e aquilo que a maior parte dos homens julga ser irreal e não existente, o sábio conhece como o único que é Real e existente”. (Bhagavad Gita – II-69)

Para a filosofia hindu, o mundo material não passa de uma ilusão dos sentidos. Nessa perspectiva, tudo que entendemos como o mundo real seria uma percepção de nossa consciência, mediada pelos sentidos físicos. O mito da deusa Maya é a representação dessa ilusão do mundo material, que domina a consciência humana com véus que nos impedem de perceber a realidade.
O conceito da ilusão que domina a consciência, difundido pelos hindus há 4.500 anos, é foco de estudos da neurociência. O cérebro humano possui um filtro do sistema cognitivo, denominado Sistema de Ativação Reticular, responsável por filtrar para a nossa consciência o que ocorre à nossa volta. A existência desses véus de ilusão é necessária. Nossa mente não suportaria todos os estímulos aos quais estamos expostos.
Quando passamos a compreender melhor alguns mecanismos do cérebro, entendemos que nossas crenças afetam aquilo que temos como compreensão da realidade. Assim podemos desnudar alguns véus da ilusão da deusa Maya. Exemplo de como a ilusão nos afeta é a noção que temos de tempo. Obcecados por algo que entendemos como real, caímos na armadilha dos que pregam que tempo é dinheiro. Assim abdicamos da realização de nossos ensejos mais profundos, movidos pela pressa e a impressão de que não temos tempo, impregnados por bloqueios destrutivos.
Num cotidiano tomado por situações que envolvem dores, traumas, frustrações e culpa, nossa percepção de mundo passa a ocorrer a partir daquilo que nos afeta. Assim permanecemos envoltos nos véus que nos cegam para a percepção da realidade. Libertar-se de alguns padrões destrutivos e dos condicionamentos criados a partir de falsas crenças sobre o mundo é possível quando ampliamos a percepção da realidade, lançando um novo olhar para o exterior e o interior.
Assumir o papel de observador da realidade, entrar em contato com a própria essência e procurar o caminho da libertação através de processos terapêuticos pode ser interessante. Deixo aqui uma proposta de meditação para quem deseja ampliar a consciência. Num lugar calmo e arejado, sente-se com as costas retas e pernas cruzadas. Feche os olhos e respire profundamente. Imagine-se como um ponto de luz que se expande.
Avalie as situações que o afligem no cotidiano e veja cada uma delas sendo liberada como um ponto de luz. Por fim, tenha em mente que cada situação que passamos é importante para o nosso crescimento pessoal. Mantenha um sentimento de gratidão, lembrando de que cada pessoa que cruza o nosso caminho pode colaborar com o nosso crescimento pessoal. Lembre-se que as pessoas difíceis são as que mais nos impulsionam a ultrapassar nossos limites.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

Héstia e o sonho da volta pra casa

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Uma jovem estava tendo pesadelos repetidos. Era sempre a mesma coisa, ela tentava voltar pra casa, mas não conseguia. Acordava sempre angustiada e cansada. Algo importante sobre os sonhos é que eles revelam conteúdos que ajudam no autoconhecimento. Carl Jung foi um dos estudiosos que abriu caminho para o entendimento do campo onírico, sobretudo seus reflexos emocionais e também arquetípicos, carregados de significações.

Para entender os motivos que podiam estar causando os pesadelos, a jovem examinou sua rotina de vida. Detalhes de um cotidiano conturbado, com um trabalho bastante exaustivo, metas de vendas que quase nunca se cumpriam e uma vida social que incluía noitadas e festas com amigos em sua casa. Um verdadeiro redemoinho de ocupações, num lar que funcionava como misto de vestiário e pousada, quase sempre tomado pela desorganização e limpeza precária.

O caos continuava se instalando na rotina da jovem e os pesadelos se repetiam, até que outro elemento veio à tona em mais um sonho. Uma senhora vestida de branco acendeu um fogão de lenha no centro da casa da jovem. Aquela imagem deixou uma indagação. Que mensagem trazia a senhora do fogo? Algo estranho para uma jovem que costumava se alimentar em fast foods. As chamas do fogão de sua casa estavam quase sempre apagadas, quando muito algo era aquecido no forno micro-ondas.

A resposta para esse sonho pode ter vindo do panteão dos deuses gregos. Héstia é uma antiga deusa, invocada ao acender o fogo, reverenciada por sua enorme importância para a civilização. À deusa eram erguidos altares no centro dos principais espaços públicos e privados, em cada casa, em praças e nas escolas. Ela é a própria representação alquímica da transformação dos ingredientes em alimentos, lembrança da chama da vida que pulsa. Nosso papel nesse mundo não precisa ser somente o de cumprir uma rotina exterior. Há quem diga que a vida é pagar boletos e tentar emagrecer. Discordo.

Entrar em contato com o arquétipo da deusa Héstia pode ser um convite para a intimidade e o conforto do lar num sentido pleno, num ritual diário de restabelecer a energia do corpo e da alma. Uma mensagem de entendimento das necessidades individuais, de buscar forças internas para enfrentar o poder do fogo da realidade do dia a dia e dos problemas imprevisíveis. É estabelecer um porto seguro que possa servir de aconchego.

Depois de estudar mais sobre a deusa e de rever sua rotina de organização material e mental, a jovem pôde experimentar um bem-estar que há muito não sentia. Instituiu uma agenda diária mínima de afazeres domésticos e de exercícios de respiração e meditação e matriculou-se em aulas de dança para expurgar o descontentamento com o corpo e a necessidade de estar com as amigas. Desse modo, restabeleceu sua conexão com ela mesma.

Sobre os sonhos e a obra de Jung, Nise da Silveira, no livro ‘Jung: Vida e Obra’, explica que o sonho é uma representação do inconsciente, uma coisa viva, que exprime as coisas tal como são, na linguagem arcaica das imagens e dos símbolos. “Do mesmo modo que o corpo reage de maneira adequada a um ferimento, uma infecção ou a um tipo de vida anormal, assim também as defesas psíquicas reagem por meio de defesas apropriados, a alterações perigosamente perturbadoras”.

 

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.

Resgatar a herança da sabedoria também é constituir patrimônio

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As histórias contadas por Dona Benta, no Sítio do Picapau Amarelo de Monteiro Lobato, encantam crianças há décadas e fazem parte do imaginário afetivo de algumas gerações. A avó que compartilha a sua sabedoria através da oralidade representava um bom costume que foi se perdendo ao longo dos anos. O aumento da população idosa no Brasil suscita uma questão importante sobre a necessidade de garantir uma vida inclusiva para os mais velhos. Dados do IBGE indicam que entre 2005 e 2015, a proporção de idosos de 60 anos ou mais, na população do País, passou de 9,8% para 14,3%.
As grandes mudanças de comportamento, sobretudo por conta da tecnologia, facilitaram o acesso à comunicação, mas afastaram o hábito de ouvir histórias, conversar mais, reunir as pessoas de forma a aumentar a compreensão sobre a história de vida de cada membro familiar. As pessoas passam grande parte de sua vida com foco em amealhar os patrimônios que podem ser comprados, em detrimento do grande patrimônio cultural, histórico, familiar e afetivo.
Ainda que haja um grande movimento de consciência sobre a necessidade de cultivar bons hábitos alimentares e de prática de atividades físicas em todas as fases da vida, temos descuidado de fatores importantes e que contribuem para a saúde geral da população da terceira idade. Compartilhar sabedoria e ouvir histórias é um modo de ter acesso aos recursos íntimos, aflorando as emoções e a imaginação e aumentando o sentido de pertencimento.
Ao preservar as tradições do núcleo familiar, aumenta-se a compreensão sobre o que foi vivido pelos antepassados, o que é de grande valor, não apenas para que os mais velhos consigam compartilhar sua sabedoria, mas para que a ancestralidade seja compreendida de forma mais ampla. Quando a história familiar é renegada, uma parte da alma de seus membros tende a se perder, num emaranhado de difícil acesso.
Assim como o vento, os dramas familiares costumam sair pela porta e entrar pela janela. A psicoterapia sistêmica trata, entre outras questões, das “sagas familiares”, que são histórias e dramas que se repetem em uma família. É bastante comum que alguns membros revivam um problema grave que também afetou um antepassado, fazendo renascer uma ferida que não foi curada no núcleo familiar.
Honrar e respeitar a hierarquia, aceitar e compreender a história familiar são formas de preparar psicologicamente os mais novos para os desafios da vida, revelando heranças capazes de afetar as gerações futuras. Compartilhar a sabedoria e entrar em contato com a própria dor são formas de resignificar o sentido da vida, saindo da superficialidade e ampliando a compreensão das leis que regem a existência humana.

Texto escrito por Daniella Sinotti, Terapeuta Transpessoal Sistêmica e Jornalista.